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A Pandemia que não terminou

Enquanto muitas marcas ganharam imunidade, outras pereceram

A pandemia foi tratada como evento. Eu a enxerguei como processo.

Ela não terminou porque deixou de ser sanitária e passou a ser estrutural. Mudou hábitos, acelerou tecnologias, expôs fragilidades estratégicas e testou a musculatura cultural das organizações. Algumas marcas desenvolveram anticorpos. Outras não resistiram à febre.

Em junho de 2020, publiquei sobre um movimento interessante da Lupo. A marca rapidamente colocou no mercado uma máscara funcional, aproveitando a sua competência industrial em malharia. Produto adequado ao momento e execução ágil. Mas faltava algo essencial: a marca visível. Um ícone mínimo que reforçasse identidade e propriedade simbólica.

Pouco depois, o ajuste veio. Um pequeno duplo “L” passou a integrar o produto. Melhorou. Ainda assim, o episódio ilustra algo maior: em tempos de crise, velocidade é vital, mas clareza de marca é sobrevivência.

A pandemia funcionou como um violento e dramático teste de estresse global. E foi agravada por choques geopolíticos como a guerra na Ucrânia, que ampliou incertezas econômicas e cadeias de suprimento.

Mas sejamos francos: o mundo corporativo já vivia sob epidemias crônicas antes de 2020; transformação digital, polarização social, pressão ESG, hipercompetição, erosão de margens e volatilidade regulatória. O vírus apenas retirou o anestésico.

Imunidade corporativa não se compra. Constrói-se.

Ao longo de décadas assessorando empresas e conselhos, aprendi que crises não criam caráter organizacional. Elas revelam.

Negócios com cultura adaptativa, liderança treinada e visão estratégica reagiram rápido. Não foi apenas questão de orçamento. Foi de mentalidade.

Durante a quarentena, pequenos restaurantes próximos de casa reagiram com impressionante agilidade ao delivery. Aprenderam logística, embalagem, comunicação digital e relacionamento via aplicativos, que impulsionou o e-commerce, que derramou riquezas em novos negócios. Enquanto isso, operações maiores hesitavam, presas ao paradigma do “consumo presencial”. Não foi o tamanho que determinou quem sobreviveria. Foi a flexibilidade ágil.

Defendo há décadas que Branding é, acima de tudo, uma disciplina estratégica. Não é estética. Não é campanha. É capacidade de gerar significado consistente em ambientes instáveis.

O caso das cápsulas e a erosão silenciosa

Também analisei em profundidade a Nespresso, cuja proposta premium acompanhei desde sua chegada ao Brasil. A marca construiu desejo, experiência e preço elevado sustentados por patente e comunicação sofisticada.

Quando a patente expirou e a pandemia alterou padrões de consumo, concorrentes avançaram com cápsulas compatíveis, preços menores e qualidade aceitável. A barreira deixou de ser tecnológica e passou a ser puramente simbólica. E símbolo, se não for constantemente nutrido, dilui.

Grandes crises expõem o quanto conselhos e lideranças conseguem antecipar movimentos, revisar dogmas e questionar certezas internas sem medo. A vigilância competitiva contínua, inclusive sobre players que “não parecem concorrentes”. Tornando-se uma obrigação estratégica.

Governança em tempos de ondas permanentes

Um conselho eficiente não protege a empresa do inesperado. Prepara pessoas para atravessá-lo.

Isso implica:

  • Revisão constante de propósito e prioridades;
  • Questionamento estruturado de paradigmas;
  • Estímulo real à inovação;
  • Reconhecimento do esforço adaptativo das equipes.

Crises são ondas sucessivas. Não há intervalo definitivo entre elas. A ilusão de estabilidade é o maior risco estratégico do século XXI.

A história que resume tudo

Conversei certa vez com uma profissional que trabalhou anos em uma loja da Toys”R”Us. Chorava ao relatar o esforço para se adaptar às mudanças que, no fim, não foram suficientes para salvar a operação.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: estamos realmente mudando ou apenas reagindo superficialmente?

Lidar com transformações imprevisíveis será o grande desafio das próximas gerações. E, sejamos honestos, ainda não aprendemos plenamente a mudar. Muito menos a gostar de mudar.

Conclusão

A pandemia sanitária pode ter arrefecido, mas a pandemia estratégica permanece.

Empresas continuarão enfrentando choques tecnológicos, sociais, ambientais e políticos. Algumas desenvolverão imunidade organizacional na cultura, governança e com branding robusto. Outras sucumbirão à própria rigidez.

No fim, não é o vírus que determina quem sobrevive.
É a capacidade de questionar “tudo isso que está aí” antes que o mercado o faça de forma implacável.

A pandemia não terminou.
Ela apenas mudou de forma.

JR Martins – GlobalBrands®Tokens

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